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Orgulho LGBT

27/06/2017

LGBT pra quê?

Conheça as histórias de pessoas corajosas que enfrentam o dia a dia em uma sociedade ainda não tão evoluída

LGBT pra quê?
 
Conheça as histórias de pessoas corajosas que enfrentam o dia a dia em uma sociedade ainda não tão evoluída
 
Eduarda Endler, Laís Soares e Renata Cardoso
 
Você é um homem e está andando na rua com um amigo. De repente, um grupo de pessoas (maiores e mais fortes), decide que vai bater em vocês. Você é uma mulher, está em uma festa com sua namorada, quando um homem chama os amigos e bate em você, afinal, “você não quer ser homem? vai apanhar como um”. Você é uma garota e gosta de ficar com outras meninas, quando, subitamente, um homem decide participar de um beijo entre vocês, sem ser convidado, pois acredita que o ato, na verdade, é para a sua própria satisfação. O que leva pessoas a agredirem outras que têm orientações distintas? Por que o diferente causa tanto ódio? Afinal, o que é ser normal? E diferente? Quem definiu esses padrões? Essa repulsa pelo outro gera dados assustadores.
 
A cada 25 horas no Brasil, morre uma pessoa LGBT vítima de violência. A brutalidade está impressa nessas histórias: 31% das mortes são causadas por armas de fogo, enquanto em 27% são usadas armas brancas, incluindo ainda enforcamento, pauladas e apedrejamento. Requintes de crueldade, como tortura e queima do corpo, também são frequentes nos casos em que o preconceito fala mais alto que a humanidade. Os números impactantes, fornecidos pelo Grupo Gay da Bahia, demonstram uma realidade assustadora, porém tratam-se da ponta de um iceberg: muitos casos não chegam a ser notificados. Nesse cenário, violências diárias, como preconceitos e agressões, acabam fazendo parte da vida de milhões de pessoas. Histórias como a de Felipe, Gabriela, Giselle e Lou — pessoas LGBT’s —, descortinam o cotidiano de quem vive em um mundo heteronormativo.
 
Assim como não há um padrão para a sexualidade, não existe um padrão temporal para se entender e aceitar uma orientação sexual fora da heteronormatividade. Para Gabriela Melo, 24 anos, aluna de Sociologia e Política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), o entendimento de ser uma mulher bissexual chegou somente depois de ser adulta, quando entendeu que existia essa possibilidade de orientação sexual. Apesar disso, ela se reconhecia assim desde mais nova, tendo tido, inclusive, seu primeiro beijo com uma menina. Na maior parte da adolescência, Gabriela se relacionou apenas com homens, porque não havia espaço para ficar com mulheres e, por isso, era algo que guardava apenas para si. Já Lou Polizio, 17 anos, artista e também estudante de Sociologia e Política, sempre se viu como uma pessoa diferente. Atualmente, Lou se define como genderqueer, apesar de estar sempre em uma constante vida de descobertas. Seu retrato sempre foi claro, apesar de algumas pessoas não quererem acreditar naquilo que estava visível.
 
Felipe Paludetti, 29 anos, estudou Psicologia e Jornalismo antes de ingressar no curso de Sociologia e Política. Homossexual assumido desde os 14 anos (quando beijou pela primeira vez outro garoto), passou por um período de adaptação familiar e contou com ajuda da internet para conhecer outras pessoas iguais a ele e descobrir nesse contato a valorização da sua própria forma de ser. Giselle Cristina dos Santos, 31 anos, atualmente é estagiária de pesquisa e cursa a graduação de Sociologia e Política. Ela, que quando criança não tinha noção de sexualidade, não sabia que a admiração que sentia pelo sexo feminino era mais do que um encantamento. Antes de entender sua homossexualidade e assumir ser lésbica, Giselle namorou meninos, mas foi por volta dos 16 anos com pesquisas sobre o tema que a estudante compreendeu — e afirmou para si — o que sentia.
 
Quatro vidas, quatro histórias distintas. Em comum, o desejo de sobreviver diariamente em uma sociedade preconceituosa e violenta. Os estudantes da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) têm suas vidas marcadas por desafios, enfrentando diariamente a discriminação. Mas a força para enfrentar tudo de cabeça erguida está no amor. Seja por outra pessoa, pela família, pela comunidade...
 
São Paulo e o preconceito: o estado que mais assassina LGBT’s
Viver no estado que mais notifica assassinatos de LGBT’s em termos absolutos (em 2016, foram 49 homicídios), é um constante desafio para os jovens. Apesar de  considerar se privilegiado, por ser homem, branco e cisgênero, Felipe já passou por diversas situações de preconceito e violência: “Eu ainda era adolescente, quando estava com um amigo perto da Avenida Paulista. Um rapaz se aproximou e perguntou que horas eram. Eu disse que não tinha relógio, ele olhou para mim e disse: ‘Você é viado?’ Nesse momento, eu percebi que algo ia acontecer. Quando eu olhei para trás tinha mais cinco caras vindo em minha direção. Um deles falou que a gente teria que correr para lados opostos, que eles iam escolher em qual de nós dois iam bater. Conseguimos correr para o mesmo lado e escapar, mas eu fiquei sem sair por um tempo com receio de ser agredido”, recorda.
 
Já em 2010, quando estava em um bar com um parceiro, o dono do estabelecimento pediu para que eles se retirassem, pois o local não era lugar para “aquilo”, no caso, um abraço entre eles. “É ruim você não poder expressar carinho. Parecia que as pessoas não estavam conseguindo comer de nojo de ver dois homens abraçados”, conta o estudante.
 
Diferente de Felipe, Lou nunca viveu uma situação de violência ou preconceito. “Eu agradeço muito, porque nunca passei por alguma forma de LGBTfobia”, reconhece Lou. Apesar disso, já ouviu muitas piadas, o que considera ser de praxe. Nem mesmo no meio online passou por algum tipo de preconceito, e reconhece a sua sorte. “Eu sei que o mundo não é toda essa beleza que eu vivi até hoje. E sei que alguma hora ou outra isso vai acabar acontecendo e eu tento me preparar pra ser mais forte, porque basicamente eu sou a única pessoa que conheço que nunca sofreu algo assim, infelizmente”, conta.
 
Ao contrário de Lou, ser lésbica e negra faz de Giselle alvo de um duplo preconceito: “Eu sou uma mulher negra lésbica, não tem como dissociar os dois movimentos”, enfatiza Giselle. Articular a questão racial à homossexualidade em um contexto de periferia, realidade social da estudante, a fez passar por inúmeras situações de constrangimento. “Na periferia a cultura da heteronormatividade ainda é mais arraigada que nos grande centros. Na periferia é tudo mais engessado, mais duro. Aqui tem muito mano e mano é muito macho (risos). Quando você passa com uma menina, ainda mais se eles acham bonita, é como se fosse uma falta de respeito com eles”, explica.
 
Para Gabriela, ser uma mulher bi na sociedade é uma situação complicada. Mesmo tendo alguns privilégios, já passou por preconceitos. “Eu já sofri bifobia de uma forma nojenta dentro de balada hétero, onde eu estava acompanhada de uma menina, ficando, e um cara entrou no meio e agarrou nós duas, porque ele está acostumado a assistir filme pornô de lésbicas e querer entrar do meio, sabe? Foi horrível”, lembra. Já em  outra situação, no seu antigo local de trabalho — uma loja de roupas —, era colega de duas mulheres cristãs, uma delas gerente. Lá, diz, Gabriela, havia um discurso homofóbico forte. “Eu sabia que não podia me assumir ali de forma alguma, porque eu literalmente seria demitida. A gente se trocava, via as outras mulheres nuas provando roupas, então elas iriam me matar se soubessem que eu estava ali e teriam aquele discurso bifóbico e lesbofóbico de sempre ‘você está ali me vendo pelada, então vai me querer’”, conta.
 
A violência, nesses casos, aparece de duas formas: física e psicológica. Mesmo quando não existem feridas expostas, há um machucado interno que incomoda muito e, que em vários casos, deixa uma cicatriz, que pode ser chamada de medo. O medo de segurar a mão do(a) parceiro(a), de demonstrar afeto em público, de ser verdadeiramente quem se é.
 
Família: o choque com a novidade
Na maioria dos casos, o diferente assusta. E quando, de repente, seu filho, irmã ou irmão parece transformar-se em outro? Muitas famílias têm dificuldade em aceitar algo que não haviam planejado. Mas não se trata de uma escolha profissional, por exemplo. Trata-se da forma de ser e sentir da pessoa querida, que não deixou ser quem sempre foi, mas está trilhando uma possibilidade diferente. Aos 24 anos, Gabriela já se relacionou com várias mulheres, mas apenas namorou uma vez — com um homem. Então, só nesta situação que apresentou uma companhia para a família: “Ainda não tive experiência de apresentar para a família uma mulher, mas eu tenho, sim, um pouco de medo. Porque a minha família, principalmente pelo lado da mãe, é muito homofóbica. Eles são conservadores e católicos, então não sei como seria a reação deles, porque eles fazem muitas piadas homofóbicas, e isso sempre me incomodou muito.” E nessas situações, a estudante não se cala. Apesar de não falar para a família sobre sua sexualidade, sempre se posicionou em seu discurso defendendo os LGBT’s, não por ela mesma. “Quem sabe que eu sou bissexual, entende pelo subentendido mesmo, compreende através do meu discurso, através dos meus posts do Facebook, porque realmente, pra minha família eu não me assumi”, afirma.
 
Mesmo sabendo da possibilidade de ter um filho LGBT, os pais de Lou não quiseram acreditar. Para a mãe, Lou considerou tranquilo contar o que sentia, enquanto que para o pai, já foi mais difícil: “Para ele, é bem complicado ter um filho que não é exatamente o que ele esperava”. Para o restante da família, Lou nunca deixou a situação clara. Ou seja, nunca afirmou nada, mas também nunca escondeu. “Quando eu falei ‘eu gosto de caras’, como gay, em tese, faz uns três ou quatro anos, não me lembro, mas quando eu falei ‘eu acho que eu sou trans’, foi ano passado, mas como eu disse, eu não sei o que vai ser daqui pra frente, eu não tenho essa pressa de descobrir alguma coisa”, lembra.
 
Conforme se aprofundava em pesquisas sobre a homosexualidade, Giselle ia mudando seu comportamento, o que não passou despercebido aos olhos da mãe. “Não foi muito fácil, já que ela idealizava outra coisa para mim. O primeiro pensamento é que seu filho vai virar outra ‘coisa’, não vai ser mais a mesma pessoa, só com uma orientação sexual diferente da que ela imaginou”, conta a estudante, que teve que lidar com a resistência materna. “Nos primeiros anos, minha mãe foi psicologicamente agressiva. Sempre que podia achava um jeito de me rechaçar de alguma forma, de me colocar em alguma situação constrangedora, tudo para me deixar o mais desconfortável possível. Quando passou o choque, ela viu que não dava mais para retroceder e ficou mais tranquila”, comenta Giselle.
 
Para Felipe, o debate familiar se deu principalmente porque existia uma visão distorcida do que era ser homossexual. “Meus pais achavam que pessoas homossexuais obrigatoriamente se tornariam travestis. Tive que explicar para eles que eu me identificava com meu gênero, que eu não tinha vontade de virar mulher. Tive que explicar que eu continuava me identificando com o gênero masculino mas que eu tinha atração por homens. Hoje meus pais, meu irmão e minha sobrinha sabem e é super tranquilo”, conta o  estudante.
 
Militância: quando a dor vira luta
A militância é um ponto em comum entre os quatro jovens. Alguns a fazem de forma rotineira, enquanto outros também participam de ONGs sobre os direitos dos LGBT’s. Gabriela mantém sua militância no dia a dia, em suas conversas e no seu discurso, mesmo sem ter se assumido para a família. “Dentro da família, eu me posiciono, mas não falei ‘eu sou’ porque acho que a oportunidade seria se eu entrasse com uma namorada dentro de casa”, explica. Mas nos locais onde se sente confortável, Gabriela se assume. A FESPSP é um dos lugares em que a estudante deixa para trás o medo das consequências e se declara bissexual. “Eu tenho mais coragem de falar, principalmente depois de ter entrado na FESPSP e ter me aproximado da militância política mesmo. Eu aprendi, empiricamente, que se assumir é um ato político”, ressalta a estudante.
 
Assim como Gabriela, no momento Felipe não milita, mas já trabalhou na Coordenação de Políticas LGBT da prefeitura de São Paulo, dentro do Centro de Cidadania LGBT. “Esse centro, que foi aberto na gestão Haddad, é um local de atendimento para população LGBT em situação de vulnerabilidade. Lá é oferecido atendimento psicológico, jurídico e humanitário para essas pessoas”, explica. “Nesse período eu militei bastante, ajudei a organizar a Parada LGBT do ano passado e tive contato com muitos ativistas, principalmente transexuais. Foi um período muito importante, por que eu me sentindo diferente não esperava que existissem tantas diferenças além de mim, além do que eu sou”, salienta Felipe.
 
Giselle, ao contrário, tem uma vida militante bastante agitada. “Oficialmente, participo de dois coletivos: o Acampamento de Feminismo Interseccional, que na  sua maioria é constituído por mulheres negras e lésbicas, mas abarcamos mulheres em todos os sentidos, inclusive trans. Lá a ideia é tratar questões ligadas à vida da mulher, o feminismo nesse sentido é bem forte”, conta a estudante. Além disso, ela participa do Coletivo de Alunos e Alunas Negras da FESPSP, o coletivo 21N. “No coletivo a gente procura realizar ações especificamente para o público negro. Normalmente promovemos mesas de debate, algumas eu sou mediadora, falando por exemplo, do encarceramento em massa da população negra, como no caso de Rafael Braga”, salienta. A ideia é promover a conscientização, principalmente para poder levar essas discussões para pessoas que não têm acesso à universidade.
 
A militância de Lou também está em vários lugares. Quando se vê na condição de fala, e se não há alguém que tenha mais capacidade sobre o assunto, vai à frente. “Se é para assumir o papel de transexual, travesti, gay, do que for, dependendo do momento em que eu estiver e não ter alguém mais capacitado que eu, vou assumir esse papel, porque é uma questão de ativismo”, ressalta. Lou também faz parte da ONG Associação e Grupo Quatro Estações, que organiza a parada LGBT da sua cidade natal. “Tento fazer o possível, não só na internet, como na vida real, tento colaborar o máximo com essa militância de todas as formas que eu conseguir”, salienta.
 
Como reagir a tantas agressões, provocações e privações por simplesmente ser quem se é? Para cada vez mais diminuir os preconceitos, a educação e a disseminação de informações têm se mostrado importantes ferramentas de transformação  social,  afinal, como diria Paulo Freire: “Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão”.
 
Lou Polizio
“A lição que eu tiro de tudo isso é que eu não mudaria em nada no que eu sou. Tive muitas dúvidas do que eu era, do que eu seria, do que eu sou. Passei por muitas coisas boas e ruins, passarei por muitas coisa boas e ruins, muitas dúvidas, o tempo inteiro, constantemente, muitas situações desagradáveis, mas  não  mudaria nada. Porque essas são as peculiaridades que me fazem ser quem eu sou e como sou, e eu sou muito grato por isso. E não mudaria nada. Eu acho que esse sentimento de você realmente gostar e aceitar você do jeito que você é, isso é o empoderamento. Empoderamento não é apenas você dar voz aos outros, empoderamento é dar voz a si mesmo. É primeiro você ter o controle da sua voz, você ter amor próprio, você gostar de quem você é, para depois dar voz aos outros.”
 
Gabriela Melo
“O que eu aprendi de todas essas experiências e convívio foi que a nossa sociedade é muito atrasada, muito presa ainda na normatividade. Tem um padrão que é aceito e o resto é resto, tanto dentro da política quanto socialmente falando. Isso é muito complicado, porque a sociedade é composta por todos, por todos nós, e é por isso que a gente tem que lutar pelo nosso espaço, a gente tem que se assumir. É ter mesmo o orgulho LGBTQ, que é falar ‘nós somos, nós existimos, nós estamos aqui, nós queremos’, e a gente tem que lutar pelo nosso espaço, porque ninguém vai dar. E realmente, o primeiro passo é a gente se assumir, e a gente percebe quão atrasados estamos quando a gente ainda tem medo de se assumir. Dando essa entrevista, por exemplo, eu percebo o quanto eu preciso me posicionar para o mundo, que é o primeiro passo de toda militância. É tudo muito complexo, então o primeiro passo é esse: nós nos assumirmos, juntarmos e ocuparmos o espaço que devidamente sempre foi nosso.”
 
Felipe Paludetti
“Ter contato principalmente com o movimento transexual, que eu acho uma pauta super importante nos dias de hoje, me ajudou a construir minha de concepção do mundo, de vida. São pessoas que precisam de muito amparo e que precisam ser reconhecidas como pessoas. Muitas vezes elas não conseguem entrar no mercado de trabalho, não conseguem ingressar em uma universidade porque são vistas ficam na marginalidade da sociedade. Para quem ainda não se assumiu eu diria para ter orgulho, existem muitas pessoas iguais a você, você não é motivo de vergonha para ninguém. Não se sinta sozinho”.
 
Giselle Cristina dos Santos
“Não seja empoderada o tempo inteiro, não queira se impor o tempo todo... Senta, chora se desespera, esperneia… Se você não tiver pelo menos um tempo para você chorar, para tirar a armadura que você coloca todos os dias para sair na rua você não aguenta. No outro dia você vai acordar melhor”.
 
 
 



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