Notícias

Notícias


Seminário

07/11/2017

Análise das controvérsias das Revoluções Russas é realizada durante seminário na FESPSP

Ex-prefeito Fernando Haddad e historiador Nicolas Werth falaram sobre os debates e as análises sobre o movimento durante a história recente.

A barreira ideológica e concreta que separava a Alemanha em duas, Oriental e Ocidental, conhecida como Muro de Berlim, foi derrubada em 1989. A queda do muro de Berlim foi um dos mais emblemáticos momentos históricos da segunda metade do século XXI, por representar o fim da Guerra Fria e o início da reintegração da Alemanha. Neste mesmo ano, o agora ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, realizava a sua pesquisa de mestrado em Economia, pela Universidade de São Paulo (USP), sobre “O caráter socioeconômico do Sistema Soviético”, que viria a apresentar em 1990. Durante o seminário “As Revoluções Russas de 1917”, realizado pela FESPSP, pelo CEDEC e pela FFLCH-USP – em parceria com a FAPESP -, Haddad destacou que vivenciar o fim de um confronto bipolar que durou mais de 40 anos, enquanto pesquisava a URSS foi um momento muito singular.

“Uma análise do sistema era uma análise das consequências históricas de um período que acabou gerando despotismo durante 60/80 anos. Por mais que exista a melhor intenção do mundo, às vezes o processo histórico tem uma dinâmica própria, que você não controla”, declarou o ex-prefeito, que também é doutor em Filosofia. Fazendo um balanço histórico, ele conta que na época do seu mestrado percebeu que havia muita literatura dos anos 1930 aos anos 1980, que tratava sobre o tema, começando pela dissidência de Leon Trótsky, “alguém que participou da revolução e saiu por considerar o estado soviético degenerado pela burocracia estatal, que teria corrompido o sistema e invertido a sua lógica”. Haddad participou da mesa Debates e controvérsias sobre as Revoluções Russas de 1917: cem anos depois...

Ele aponta que tem um conjunto de autores com orientação de esquerda que vão analisar o sistema soviético e descaracterizá-lo como socialista, encarando-o de outra maneira. “Mais tarde, Weber vai escrever que a burocratização era um tema indominável, que deveria ser dividido em estatal e privada. Para ele, o socialismo era a união das duas burocracias, que traria o fim da liberdade. A defesa liberal de Weber é uma defesa de contenção, para evitar a burocratização da vida. Começa a proliferar um conjunto de teses que tem em comum a negação do caráter socialista do sistema soviético”, define. Haddad aponta que nos últimos 20 anos surgiu o que pode ser considerado um capitalismo moderno na Rússia e na China.

Para o ex-prefeito de São Paulo, o sistema soviético, para infelicidade de muita gente, se conforma nos anos 1930, a partir da ascensão do Stalin como líder absoluto do processo. “O stalinismo se caracteriza por promover uma acumulação primitiva de capital de maneira despótica. Primitiva porque toda sociedade atrasada viveu em poucos anos o que a Inglaterra passou em 300 anos. Na Rússia durou entre 70 e 80 anos o período de transição para a modernidade. Tem uma dimensão política na acumulação primitiva de capital, até ele amadurecer”, analisa, destacando que se baseou em textos de Marx e Engels que abordam a forma de transição na periferia do capitalismo. “Ambos tiveram tempo de analisar a forma clássica da escravidão como peça de engrenagem colocada a serviço da acumulação primitiva de capital. Muita gente imaginava que a escravidão na América era igual à clássica, que predizia um período feudal. Marx explica que não, que na América ela fez parte da lógica da produção”.

Haddad explica que o despotismo oriental também precisa ser analisado por uma outra lógica: “não é uma repaginação do velho czarismo, mas sim uma reação ao capital. Uma transição de uma sociedade agrária atrasada para o capitalismo moderno. Por paradoxal que possa parecer, Stalin promoveu as condições de transformar a Rússia em um país capitalista. E assim vai acontecer daqui mais de 200 anos, quando a geração de revolucionários stalinistas já não estiver aqui, porque eles não conseguem conceber que defendiam um sistema que consideram igualitário como o estopim do capitalismo moderno. A história não acontece da maneira como a gente imagina, ela se faz de acordo com as condições que estão dadas. A transição para o capitalismo está acontecendo na Rússia e na China”, declara, acrescentado que durante muitas décadas o processo foi chamado de Estado operário degenerado, o que considera uma perda histórica, apontando para a necessidade de levar a discussão para como o processo de capitalismo mundial ocorreu, não só na servidão na América e no Lesta Europeu, mas também nas revoluções orientais. “Todas as nações adotaram o capitalismo sobre pena de perecimento, inclusive a Rússia e a China”, conclui em sua pesquisa.

Na Rússia do século XXI

Nicolas Werth, especialista em história soviética e diretor do L’Institut d’Histoire du Temps Présent – autor, entre outros estudos, de “A História da União Soviética de Lênin a Stalin” – participou através de uma webconferência da discussão sobre “Debates e controvérsias sobre as Revoluções Russas de 1917: cem anos depois...”. Werth destacou a importância de ressaltar que na Rússia, centro do episódio, não são comemoradas as Revoluções, nem no cenário político, nem no científico.

“Para o governo Putin, esse é um processo histórico, trágico, de enfraquecimento, desestabilização, rasgo e desordem do povo russo. De forma significativa, a grande festa de comemoração nacional foi substituída para 4 de novembro. A Festa da União Nacional comemora a libertação de Moscou pelos poloneses, que aconteceu em 1612”, explica o historiador. Werth analisou a historiografia do evento, suscitada sobre as várias revoluções russas de 1917. “Outubro eclipsou fevereiro. Houve um fascínio mundial porque outubro retomou a mais forte república política da democracia moderna, depois de mais de um século, assim como foi a Revolução Francesa, por uma sociedade mais justa, igualitária e libertária”, definiu.

O seminário se encerrará com o debate “A URSS e o Comunismo no Século XX”, às 19h no dia 7/11, com a participação de David Priestland, autor de “A Bandeira Vermelha” e professor da Universidade de Oxford, e Cicero Araujo, doutor em Filosofia e docente da USP.

Rodrigo Carani
Agência FESPSP




Veja Mais

Mapa do site

FESPSP
Institucional
Biblioteca
Tecnologia
Pesquisa
Extensão
Eventos
FAQ
Estude na FESPSP
Graduação
Pós-Graduação
Extensão
Debates Contemporâneos
 
2ª via do boleto/cartão
Agência FESPSP
Artigos
Comunicado
Eventos
FESPSP na mídia
Notícias
Palestras
Publicações
Seminário FESPSP 2017
Contato
Fale Conosco
Trabalhe Conosco
Localização
Ouvidoria

FESPSP nas redes sociais

FESPSP - Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo

Rua General Jardim, 522
Vila Buarque - São Paulo - SP

11 3123 7800

© Copyright 2014 - FESPSP - Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo

by HKL

Dúvidas?

Nós ligamos para você!

Envie seus dados através do formulário abaixo e nossos atendentes entrarão em contato com você!