Sábado, 4 de fevereiro de 2012
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Projeto pedagógico Faculdade de Administração

O Curso de Administração da FESPSP insere-se num campo de atividades presentes em todas as organizações, qualquer que seja sua natureza, finalidade, porte, ramo de atividade ou setor econômico.

Concretamente, sua tônica volta-se para o setor de serviços, sabidamente o de maior crescimento atual, sobretudo em São Paulo, onde é ministrado.  Para tornar clara a sua concepção, estão apresentados a seguir:

  • O contexto e o enfoque do curso; e,
  • O perfil profissional do aluno.

1. O contexto e o enfoque do curso

As profundas alterações pelas quais passa a economia, provocadas não só pela crescente urbanização, mas, sobretudo pela sua internacionalização e pelo advento de novos paradigmas tecnológicos, estão determinando profundas transformações no mundo do trabalho, seja na produção, seja na organização laboral. Uma das conseqüências é a reestruturação do mercado de trabalho e também dos perfis profissionais, exigindo adequadas ofertas de educação.

A urbanização, que ocorre pelo adensamento populacional até em regiões de economia agrícola, se intensifica criando novas redes espaciais e, conseqüentemente, novos padrões de convívio social, de ação política, de vida cultural e de relações econômicas, seja na organização da produção, seja na do trabalho.

Estas transformações devem ser, pela sua importância, continuamente consideradas no equacionamento de ofertas de educação.

O mercado de trabalho, em decorrência de tais fenômenos, vem se reconfigurando e colocando novas exigências. Assim, passa a ser requerido o desenvolvimento das competências e habilidades, da capacidade de comunicação e dos conhecimentos científicos e socioculturais para a formação dos novos profissionais.

No quadro geral das transformações que vêm afetando a totalidade dos países, inclusive o Brasil, com a reestruturação das economias e da produção, ocorre uma recomposição correspondente da estrutura ocupacional. Assim, profissões e ocupações caem em desuso ou são transformadas pela introdução de novas tecnologias, bem como emergem outras novas. Também ocorrem mudanças na forma como muitas passam a ser exercidas (trabalho por conta própria formal ou informal, terceirizado, etc.), bem como na quantidade requerida de profissionais em alguns subsetores ou áreas, em decorrência da utilização de novas tecnologias ou da reestruturação das empresas.

Nesse processo há uma transferência da força de trabalho do setor industrial, que cada vez mais faz uso intensivo de tecnologias poupadoras de mão de obra, para o setor terciário. Este que, junto com o secundário, tradicionalmente absorvia o excedente de trabalhadores migrantes do setor primário, passou a receber, assim, também do secundário. Dentre outras tendências, portanto, deve ser assinalada a do crescimento de setor de serviços.

 

No município de São Paulo, o setor serviços apresentou grande expansão, em decorrência dos processos de terceirização da indústria, da concentração na cidade de um parque de serviços financeiros e de gestão e do crescimento de um segmento de serviços de alto padrão (serviços superiores), principalmente nas áreas de lazer e entretenimento. Vale notar ainda a participação dos serviços públicos, em especial os ligados à educação, transportes e comunicação.

A análise da participação da população ocupada no Brasil segundo os setores denota essa evolução do setor de serviços. Os setores primário, secundário e terciário contavam em 1980 com participação de 30%, 15,5% e 44,6% da população ocupada, respectivamente, tendo passado a 24,2%, 19,8% e 56% em 1999 e, em 2002, para 20,6%, 21,3% e 58,1%. Na Região Metropolitana de São Paulo, de acordo com a Pesquisa de Emprego e Desemprego realizada em convênio entre o SEADE e o DIEESE, observou-se um crescimento de 3,3% no nível ocupacional em 2004, a partir de criação de 183.000 ocupações nos serviços, 41.000 na indústria, 41.000 no comércio e 9.000 em outros setores. A pesquisa também aponta que 65,9% dos ocupados na região trabalham na cidade de São Paulo, onde o desemprego reduziu de 18,7 para 18,1% da População Economicamente Ativa.

A informalidade constitui um problema também relevante no que tange ao trabalho no Brasil e na cidade de São Paulo. Do total de trabalhadores do Brasil em 1999, aproximadamente 58% estavam ocupados informalmente, sendo que desse total, 50% se alocavam no setor terciário, 32% no primário e 18% no secundário (KON, 2004, p. 146).

Outra tendência que pode ser assinalada é a da exigência de capacidade de gestão, seja para administrar seu trabalho autônomo, formal ou informal, seja para aplicá-la como empregado em empresas que, menos hierarquizadas, passaram a dele exigir desempenho gerencial, com iniciativa e autonomia, no desempenho de seu trabalho.

Por outro lado, em todos os setores, houve intenso processo de terceirização de atividades de apoio administrativo e de serviços em geral.

Esse movimento vem dando origem ao nascimento de empresas classificadas setorialmente como de prestação de serviços, comércio ou mesmo comércio e indústria. Isto explicaria o fato de, invariavelmente, em todas as regiões, a abertura de novos postos de trabalho estar concentrada em serviços de administração, conservação, limpeza, alimentação, segurança e apoio administrativo, e vendas. É bastante provável que estes postos estejam em empresas de pequeno e médio porte.

Do contexto apresentado, decorre uma percepção, até certo ponto inovadora, de que a capacidade de gestão é essencial ao desempenho profissional neste setor, conforme os novos paradigmas que vêm se configurando. Ressalta-se que o setor de serviços implica preponderantemente no relacionamento do profissional com outro ser humano e não com uma máquina ou com insumos, como ocorre com os trabalhadores dos demais setores da economia. Daí decorre a importância da capacidade de comunicação e relacionamento que devem ter estes profissionais, sob todas suas formas, seja a lingüística, seja a interpessoal ou ainda a tecnológica.

Cabe assinalar, aliás, a tendência generalizada e irreversível da utilização cada vez mais intensa do instrumento representado pela tecnologia da informação e da comunicação baseada na microeletrônica e nos processos digitais, em todas as atividades, inclusive nas administrativas. A automação dos serviços administrativos em geral e particularmente a automação de escritórios, a comercial e a bancária e dos meios de pagamento provocou uma verdadeira revolução nas práticas de gestão.

Igualmente importante é a necessidade de utilização de raciocínio lógico-matemático no
desenvolvimento e aplicação de métodos quantitativos de gestão, indispensáveis para a
moderna administração.

Depreende-se, portanto, que os perfis profissionais e as competências técnicas dos profissionais têm que levar em conta, necessariamente, as capacidades de gestão, de comunicação e o instrumental da informática, para responder adequadamente às novas exigências decorrentes dos impactos das transformações em curso. A necessidade das competências de gestão transcende o setor de serviços, pois, está presente em todas as organizações, públicas ou privadas, de fins lucrativos ou não, como as do chamado Terceiro Setor, de todos os portes e qualquer que seja seu ramo de atividade ou setor econômico.

A partir destas observações é possível compreender a missão declarada para o curso, qual seja:

Promover uma formação de base humanista aos alunos, voltada para o desenvolvimento de capacidades, sobretudo para a gestão de serviços, pautada pela valorização das interações intra e inter grupos e o conhecimento propiciado pela tecnologia da informação e da comunicação.

Este referencial poderá ser atingido, à medida que o curso comprometa-se com o cumprimento dos seguintes objetivos:

1. Objetivo geral
Responder às tendências políticas, sócio-econômicas, culturais e educacionais que indicam a necessidade de profissionais sensíveis às mudanças e às novas exigências delas decorrentes.

2. Objetivos específicos
Propiciar a profissionalização em administração sob uma ótica que considere:

  • os novos  empreendimentos  e suas formas organizacionais;
  • a acentuada interdependência entre as organizações; e,
  • os requisitos de qualidade que atendam as necessidades dos clientes e os direitos do cidadão.

Para obter sucesso no cumprimento desta missão e objetivos, há necessidade de substituir a tradicional concepção curricular por outra que leve em conta a interdisciplinaridade, os saberes, competências e habilidades que o estudante já tenha adquirido e os que devem ser constituídos durante o curso, de forma contextualizada e significativa visando à sua aplicação.

De uma maneira geral, os currículos escolares, incluindo seus componentes metodológicos, nem sempre respondem às características, necessidades e aos anseios da sociedade e do homem contemporâneo, nem atendem aos novos paradigmas. Os fatos e as manifestações registradas, assim como a análise das características e da dinâmica do processo produtivo na área de Administração contra-indicam, de forma evidente, o “modelo” pedagógico tradicional, centrado, quase que exclusivamente, no desenho curricular por disciplinas, na maioria das vezes, desarticuladas e “teóricas” ou “acadêmicas”.

Assim, esta formação deve ser conduzida no sentido de superação da dicotomia teoria/saber versus prática/fazer ou, dito de outro modo, formação científica versus habilidades técnico-profissionais, na medida em que valoriza a simultaneidade da apropriação do conhecimento científico com a contextualização e aplicação desse saber.

Como base para estas declarações, foi estabelecido o perfil profissional do aluno a ser formado no curso, apresentado a seguir.

2. Perfil Profissional

O administrador formado por este curso é o responsável pelo planejamento e gestão de organizações de prestação de serviços, sejam elas públicas ou privadas, de fins lucrativos ou do Terceiro Setor. 

No que diz respeito especificamente à Administração voltada para serviços, as tendências indicam a necessidade de profissionais com perfil diferente daquele até agora previsto nos programas educacionais. Visam-se profissionais que tenham constituído suas competências na concretude de sua aprendizagem contextualizada nas atividades técnicas próprias das ações de gestão. A reflexão crítica, embasada nas ciências humanas e sociais, não é pressuposto teórico, que antecede a profissionalização. Ela é, ao contrário, constituída significativamente a partir da ação/aprendizagem profissional, o que explica a organização curricular adotada que se inicia por abordagem mais técnico-profissional e progride para uma mais científico-reflexiva. 

O perfil do aluno, em consonância com a identidade do curso, volta-se para o denominador comum da qualidade do atendimento do cliente final, consumidor ou usuário dos serviços das organizações. Suas competências de gestão incluem, de forma indissolúvel, as competências de comunicação e relacionamento, de utilização das tecnologias da informação, e de aplicação de métodos quantitativos de gestão.

É um profissional que deve reunir as condições necessárias para planejar, organizar, dirigir e controlar os processos organizacionais, empregando para isso os métodos e técnicas condizentes com as exigências do atual estágio de desenvolvimento das ciências e das tecnologias, com iniciativa e empreendedorismo.

O egresso do curso poderá atuar tanto na gestão geral das organizações do setor de serviços, como também, mais particularmente, conforme sua opção de especialização, em Organizações do Terceiro Setor ou nas funções mais específicas de Interações nas Organizações e de Gestão da Informação.

Espera-se dele que seja capaz de agir com competências intelectuais, organizativas, comportamentais e sócio-políticas, dentre as quais:

  • reconhecer e definir problemas, equacionar soluções, pensar estrategicamente, introduzir modificações no processo de trabalho, atuar preventivamente, generalizar e transferir conhecimentos, utilizando-os nas diversas situações encontradas no trabalho;
  • compreender a dinâmica social do contexto do setor de serviços em que atua, reconhecendo os princípios de responsabilidade social das organizações e tendo consciência da qualidade e das implicações éticas do seu trabalho;
  • ter uma percepção crítica e atualizada sobre o ambiente em que atua e  suas implicações quanto ao trabalho que realiza;
  • ser pró-ativo, empreendedor e capaz de fazer escolhas com autonomia;
  • ser capaz de planejar e organizar seu próprio trabalho, estabelecendo métodos próprios para  gerenciar seu tempo e espaço de trabalho;
  • aplicar as tecnologias de administração para apoiar suas decisões;
  • conhecer as práticas gerenciais aplicáveis às organizações de serviços;
  • desenvolver diversas formas de negociação, inclusive as voltadas para as relações produtivas em um mundo globalizado;
  • lidar com as informações de maneira a incrementar sua capacidade técnica e gerencial;
  • expressar-se e comunicar-se com pessoas relacionadas com a organização em que atua, sejam superiores, subordinados, clientes, fornecedores, membros da comunidade, meios de comunicação  etc.;
  • manejar situações que envolvam relações pessoais e grupais próprias das organizações;
  • desenvolver liderança e cooperação para o trabalho em equipe, relacionando-se com seus integrantes e motivando-os; e
  • envolver-se com o constante aprimoramento dos conhecimentos multidisciplinares que interagem com a administração.

KON, Anita. Economia de Serviços. Teoria e Evolução no Brasil. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004, p. 106

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